quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A MÚSICA É O ÓPIO DO POVO

Tomo a liberdade de começar minhas palavras distorcendo um pouco o aforismo do alemão Karl Marx. Se ele identificava, no século XIX, a religião como um meio de se amortecer os ânimos populares, tornando as pessoas algo dóceis e subservientes, vejo algo semelhante acontecer nos dias de hoje. Mas o instrumento utilizado não é mais a religião, e sim a música. A música é a expressão mais primitiva da alma humana. Antes mesmo de pensar racionalmente, o homem já usava a música como forma de comunicação entre ele e os deuses, ou com a natureza, ou até consigo mesmo, através de seus semelhantes. Alegrias, tristezas, guerras, agradecimentos, mostras de fé, e tantos outros sentimentos, eram exteriorizados por meio dos cânticos rituais. Mas isso foi há muito tempo. O sagrado deu lugar ao profano, que entra em cena, deslavadamente e sem pudores, no século XX. É nessa época que verificamos o surgimento da “indústria do entretenimento”, fenômeno analisado pelo também alemão Theodore Adorno. Adorno vê a cultura (a música principalmente) como mais uma forma de exploração do trabalho pelo capital. O lazer passa a ser uma extensão do trabalho, o que faz com que essa opressão seja constante. Isso quer dizer que mesmo em seu tempo de ócio, o povo estará sempre sob o domínio da classe dominante, que oferecerá prazer só com o intuito de mais acúmulo de capital. Mas, particularmente, acho que Adorno subestima a inteligência humana e sua capacidade de reação.
Independente disso, a música passa a ser usada como forma de dominação do povo. Ditando as regras do que deve ser consumido, e assim uniformizando o pensamento, é mais fácil a “domesticação” da contestação, chegando ao ponto de manipular idéias e ideais. Refiro-me ao lado social e psicológico, mesmo. Aquele em que a música é um veículo utilizado para colocar pré-conceitos e premissas na cabeça das pessoas, sempre a favor e ao lado do dominador. Essa estratégia foi (e ainda é) utilizada com freqüência em tempos de guerra, principalmente (e quase que exclusivamente) pelos Estados Unidos da América. Seja qual for o campo de batalha, sempre tem lá um show de algum grande artista, cantor(a) ou banda, com intenção de levar um pouco de “divertimento e distração” aos soldados, além de “levantar o moral da tropa”. Muitos são os exemplos, mas existe um em particular que ficou marcado na memória de muita gente: quem não se lembra de Louis Armstrong no clipe da música “What a Wonderful World”? Cantar “que mundo maravilhoso!” em plena Guerra do Vietnã é um absurdo sem tamanho. Mas a intenção era incutir na cabeça do soldado norte-americano que o mundo é, sim, maravilhoso e que ele, soldado, deve lutar para que ninguém faça desse mesmo mundo um inferno. Ele deve dar seu sangue para que o mundo continue assim, maravilhoso. Mas e em tempos de paz? Como se dá esse fenômeno?
Você já deve ter escutado (ou pior, utilizado) a expressão: “a gente ganha pouco mas se diverte!”. Pense bem: a maioria das pessoas que pensa assim é formada por gente que canta “deixa a vida me levar, vida leva eu; sou feliz e agradeço por tudo que Deus me deu!”. Ora, mesmo quem acredita em Deus sabe que nada cai do céu! Se você não trabalhar ou não fizer nada, tudo tende ao fracasso e à morte. Mas somos massacrados por rádios, lojas de discos (ou de móveis), carros alto-falantes, etc., com uma música que enaltece o espírito do comodismo; por pior que esteja a situação, é bom do jeito que está porque “Deus quis assim!”.
É a mesma coisa daquele samba paulista “Saudosa Maloca”. Assistindo à demolição de seus barracos, um dos espectadores-vítima resolve se revoltar, mas é segurado pelos outros, que ainda comentam que se os “homi” tão fazendo isso é porque estão com a razão, e que Deus dá o frio conforme o cobertor. É mais exemplo de comodismo e passividade, que permeia nossa sociedade, que ainda se dá por conformada e não faz nada para mudar. Não tem nem o trabalho de procurar outra condição de vida melhor.
Outro exemplo que me vem à cabeça: “eu só quero é ser feliz e viver tranqüilamente na favela em que nasci”. Mais um que enaltece a desgraça em que está, e se dá por feliz. Faz um favor ao Estado e às instituições de não contestar, pois, mesmo morando num lugar altamente combustível (no sentido literal, mesmo), a todo momento exposto ao tráfico de drogas, perigando ser acertado por uma bala perdida, na guerra entre polícia e bandidos, ou mesmo entre os bandidos, submetido a toques de recolher, desabamento de barracos, e tantos e tantos outros motivos, tem orgulho do lugar ... e diz que tá tudo bem! Se gostasse do lugar, mas pelo menos quisesse mudá-lo, para sair da condição de favelado (e tirar-lhe dos ombros todo o peso que essa denominação traz). Aliás, nem isso mais (ser favelado) é problema.
Outro dia, num programa de prêmios de uma TV paga, a apresentadora, Regina Casé, deu uma demonstração de que essa situação ainda vai demorar a mudar: perguntou a um dos convidados se ele preferia que denominasse o lugar onde ele morava de “favela” ou “comunidade carente”. Ela, pertencente a uma casta de privilegiados (tanta artística quanto financeiramente, tenha méritos ou não) ainda fez o favor de expor o ponto de vista dela (que é, de certa, porta voz das classes a que pertence). Pra ela, o termo “favela” é carregado de uma “nobreza”!. Não sei ela, mas a quase totalidade dessa gente que detém o poder só conhece favela através do carnaval. E não dá pra pensar outra coisa mesmo, a respeito dessas favelas (principalmente as cariocas), diante daquele espetáculo de luxo sem comparação no mundo todo. Ora, se aquela gente consegue aquilo tudo é porque deve estar bem durante o ano todo. Francamente!
Enfim, poderia me alongar muito mais, mas estaria batendo sempre na mesma tecla: somos dominados por uma elite que teima em não sair do poder, e que usa nossa própria ignorância para se manter lá. Pra eles é fácil, pois os instrumentos usados não são de difícil aceitação nas camadas mais populares (e ignorantes) da sociedade. A música, pela própria condição de “expressão da alma” de cada pessoa, tem uma capacidade de assimilação fora do comum, mais do que qualquer discurso inflamado de Fidel Castro. E quando ela vem suave, sem dificuldades de aceite pelos ouvidos (já que as atenções dos olhos ou do corpo podem estar no trabalho, por exemplo) vai direto ao subconsciente, trabalhar. E se ela vem com uma mensagem de “contente-se com o que tem, pois já é suficiente”, então, melhor ainda! Não dá trabalho de ficar explicando o por quê da situação, uma vez que o piso da cegueira provocada pela passividade é cimentado todo dia, através da música tocada no rádio, na televisão ... e nas cabeças, pensantes ou não. Aceitar essa forma de dominação depende de cada um. Aceite, se quiser. Se não, revolte-se! E faça algo, já! Nem que seja desligar o rádio!

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

EUA x GB

Pegando um gancho em nossa coluna anterior, vimos que há um embate entre EUA e a Grã Bretanha sobre a paternidade do punk rock. Mas não é só sobre ele, o punk, que paira essa dúvida e essa disputa de hegemonia. Podemos verificar que, ao longo das décadas, os dois pólos vêm trocando a liderança. Senão, vejamos.
Década de 50 – Marcam o nascimento do rock, nos EUA, com a fusão do lamento negro (blues) e a festa caipira branca (country). Tímido e reduzido a um gueto, o estilo só passou a ser aceito quando um branco cantou e dançou com a mesma malícia dos negros (não precisa falar quem é, certo?). EUA 1 x 0 GB;
Década de 60 – Repaginando o visual rocker vigente, mas ainda cantando como seus ídolos norte-americanos, os ingleses atravessaram o Atlântico e tomaram a América de assalto. Capitaneados por Beatles e Stones, dominaram os anos 60, e ainda lançaram as bases do som progressivo e do rock pesado. EUA 1 x 1 GB;
Década de 70 – O glamour entra em cena, o rock se profissionaliza e vira espetáculo. E ninguém entende melhor de espetáculo do que os norte-americanos. Kiss, Alice Cooper e cia. E eles mesmos (EUA) produzem o antídoto contra tudo isso, nos quartéis generais Max’s Kansas City e CBGB. EUA 2 x 1 GB.
Década de 80 – Os estilhaços da explosão punk do final dos anos 70 ainda estão no ar quando a tecnologia da new wave, a sofisticação do gótico e a alegria das raves invadem o mercado. U2, New Order, The Smiths, etc., são as bandas da década. Mesmo bandas dos EUA (como R.E.M.) carregam o canto com a melancolia britânica. EUA 2 x 2 GB;
Década de 90 – Bastou um disco (Nevermind) para que as atenções voltassem para a terra onde tudo começou. Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden, Alice in Chains, etc., produzem milhares de clones (inclusive no Brasil) e se multiplicam em bandas que até hoje carregam os cacoetes da turma de Seattle. EUA 3 x 2 GB.
Século XXI, década 00 – E hoje? Que temos? Podemos detectar uma invasão escandinava no mercado mundial (Hives, Hellacopters, Raveonettes, etc.) mas as atenções e créditos vão invariavelmente para os norte-americanos (Strokes, Raptuyre, Interpol, etc) e britânicos (Libertines, Coldplay, Travis, Franz Ferdinand, etc).
Lógico que essa é uma observação superficial, que leva em consideração apenas uma análise empírica do que está (ou estava) na moda. A partir do momento em que um estilo surge, ele segue produzindo bandas, que, de tempos em tempos, fazem esse estilo voltar ao topo das paradas. Basta ver a febre atual de bandas que carregam no tempero “AC DC + Cheap Trick + bandas setentistas “ (como fazem The Darkness, The Jets, e tantas outras). O importante é lembrar que sempre, em qualquer canto do mundo, tem alguém fazendo um som de verdade, com fé, sem ligar para as modas vigentes. Basta citar a história de uma banda que surgiu em meio ao furacão punk, na Inglaterra, nos final dos anos 70, e que insistiu em não tocar punk, que estava na moda, mas sim heavy metal, e da melhor qualidade. O nome da banda? Iron Maiden!
Antes de terminar, gostaria de falar sobre dois rótulos que trataremos aqui na coluna, mas que sempre geram polêmica. “alternativos” e “indies”. Gostaria de normatizar “alternativos” como aqueles sons que não se encaixam em categoria alguma conhecida (como o Guided By Voices, por exemplo). Dizia-se que Nirvana era alternativo, pois tocava uma mescla de punk com rock pesado, e, por isso, inclassificável em categorias conhecidas. Com a alcunha de “grunge” resolveu-se em parte esse problema (já que “grunge” vem carregado de controvérsias, e virou um balaio em que se encaixam coisas díspares, como Nirvana e Alice In Chains). Com o “indie” a coisa piora, pois tanto pode ser um “estilo de som independente de outros rótulos” ou “bandas que não pertençam a nenhuma gravadora”. A turma Pixies, Ride, Lush, etc., foi chamada de “indie” pelo primeiro motivo – ou seja, quase sinônimo de “alternativo”, usado uma década depois. No Brasil, o segundo significado pegou mais.
Enfim, aguardem mais nas próximas colunas.
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Jorge Vitzac, Revista Valhalla - ed. 25 - Coluna MICROFONIA
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sábado, 6 de novembro de 2010

QUE BARULHO É ESSE?

Bem vindos ao Microfonia, novo espaço da Valhalla reservado aos bons sons punks, alternativos e “inclassificáveis” em geral. Hoje existem tantas subdivisões no rock que é impossível catalogar todas elas. E dentre essas, há um grande responsável por toda essa babel de gêneros, estilos e cenas musicais: o original e genuíno punk rock. Comecemos então falando dele.
Mesmo após duas décadas de o próprio rock’n’roll ter nascido, o punk rock pode ser considerado uma espécie de “big bang” tardio da música pop ocidental. Depois dele, nada mais foi o mesmo e a própria concepção de música mudou: como a conhecemos, como se faz, quem faz, pra quem faz, etc. Um de seus lemas, uma verdadeira bandeira carregada pelo punk, é o “do it yourself” – ou seja, “faça você mesmo”. E esse foi o fio condutor de todo o universo artístico das décadas seguintes: da literatura democrática do fanzine “xerocado” à liberdade de se fazer qualquer tipo de música, sozinho, num computador, grava-la e lança-la sem interferência das grandes gravadoras. E quem criou ou descobriu esse tal de punk rock? Eis aí, devido à sua grande relevância, um dos grandes pomos da discórdia do mundo musical.
De um lado há os que defendem que os britânicos foram os criadores do estilo. A data chega a ser mágica: 1977, o ano em que o “furacão” Sex Pistols varreu as ilhas britânicas e o mundo. Hoje, esse ano cehga a definir um estilo próprio de punk, dentro dele mesmo: o “punk 77”. Por outro lado, há os que defendem que o punk surgiu na suburbana Nova York do começo dos anos 70, em clubes como o CBGB e Max’s Kansas City. Essa corrente ganhou força com o lançamento do livro “Kill Me, Please”, em que um de seus autores, Legs Mc Neil, reivindica para si a paternidade do termo “punk”.
Seja quem for, a fórmula foi seguida à risca: música nervosa barulhenta, cheia de distorção e microfonia, poucos acordes, nada de malabarismos técnico-musicais, enfim, o caos sonoro. Tudo isso emoldurado por letras que traduzem a realidade das ruas, dos esquecidos e marginalizados.
Mesmo o heavy metal deve muito ao punk. Nos anos 70, bandas como Black Sabbath, Ufo, Scorpions, e outras, eram o que podia ser chamado de Heavy Metal. Hoje, muita gente acha sacrilégio chama-las assim, reservando ao headbangers setentistas o epíteto de hard rock, pois não havia a revolta e escândalos elevados à enésima potência que o metal oitentista levou a efeito. A NWOBHM, apesar da temática lírica diferente, tomou emprestado do punk o extremismo musical que se podia fazer na época – até solos de guitarra tiveram sua importância repensada, uma vez que velocidade e peso passaram a contar bastante na música. O visual S & M dos punks foi (também) tomado emprestado pelas bandas da NWOBHM, que radicalizaram no uso de couros, tachas e rebites. Alguns até vinham da cena punk, como Paul Di’Anno, do Iron Maiden. Essa proximidade de sons e atitudes fez com que muitos punks fossem simpáticos aos sons vindos do metal, e vice-versa. E não tardou para, anos mais tarde, haver um encontro desses dois gêneros, via bandas como English Dogs, Corrosion of Conformity, Ratos de Porão, etc.
Mas o mundo mudou, e com ele a música (não necessariamente nessa mesma ordem). Tanto o punk rock quanto o heavy metal viraram clássicos. Estão estabelecidos e assimilados pelo sistema. Não chocam mais. Aqueles que têm como finalidade chocar o sistema, não utilizam mais esses recursos, recorrendo a outros expedientes; mas isto já é tema para outra análise. O que importa é que não esqueçamos dos pioneiros, daqueles que desbravaram caminhos, e abriram as portas para que pudéssemos entrar num mundo mais democrático musicalmente, e curtir o som que bem entendermos. Eles viveram numa época em que não havia CD, internet, revistas especializadas em comportamento e muita coisa que temos hoje, à mão, facilmente. Mas viveram intensamente, movidos pelo principal combustível: a música sincera.
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Jorge Vitzac, Revista Valhalla - ed. 24 - Coluna MICROFONIA
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