sábado, 6 de novembro de 2010

QUE BARULHO É ESSE?

Bem vindos ao Microfonia, novo espaço da Valhalla reservado aos bons sons punks, alternativos e “inclassificáveis” em geral. Hoje existem tantas subdivisões no rock que é impossível catalogar todas elas. E dentre essas, há um grande responsável por toda essa babel de gêneros, estilos e cenas musicais: o original e genuíno punk rock. Comecemos então falando dele.
Mesmo após duas décadas de o próprio rock’n’roll ter nascido, o punk rock pode ser considerado uma espécie de “big bang” tardio da música pop ocidental. Depois dele, nada mais foi o mesmo e a própria concepção de música mudou: como a conhecemos, como se faz, quem faz, pra quem faz, etc. Um de seus lemas, uma verdadeira bandeira carregada pelo punk, é o “do it yourself” – ou seja, “faça você mesmo”. E esse foi o fio condutor de todo o universo artístico das décadas seguintes: da literatura democrática do fanzine “xerocado” à liberdade de se fazer qualquer tipo de música, sozinho, num computador, grava-la e lança-la sem interferência das grandes gravadoras. E quem criou ou descobriu esse tal de punk rock? Eis aí, devido à sua grande relevância, um dos grandes pomos da discórdia do mundo musical.
De um lado há os que defendem que os britânicos foram os criadores do estilo. A data chega a ser mágica: 1977, o ano em que o “furacão” Sex Pistols varreu as ilhas britânicas e o mundo. Hoje, esse ano cehga a definir um estilo próprio de punk, dentro dele mesmo: o “punk 77”. Por outro lado, há os que defendem que o punk surgiu na suburbana Nova York do começo dos anos 70, em clubes como o CBGB e Max’s Kansas City. Essa corrente ganhou força com o lançamento do livro “Kill Me, Please”, em que um de seus autores, Legs Mc Neil, reivindica para si a paternidade do termo “punk”.
Seja quem for, a fórmula foi seguida à risca: música nervosa barulhenta, cheia de distorção e microfonia, poucos acordes, nada de malabarismos técnico-musicais, enfim, o caos sonoro. Tudo isso emoldurado por letras que traduzem a realidade das ruas, dos esquecidos e marginalizados.
Mesmo o heavy metal deve muito ao punk. Nos anos 70, bandas como Black Sabbath, Ufo, Scorpions, e outras, eram o que podia ser chamado de Heavy Metal. Hoje, muita gente acha sacrilégio chama-las assim, reservando ao headbangers setentistas o epíteto de hard rock, pois não havia a revolta e escândalos elevados à enésima potência que o metal oitentista levou a efeito. A NWOBHM, apesar da temática lírica diferente, tomou emprestado do punk o extremismo musical que se podia fazer na época – até solos de guitarra tiveram sua importância repensada, uma vez que velocidade e peso passaram a contar bastante na música. O visual S & M dos punks foi (também) tomado emprestado pelas bandas da NWOBHM, que radicalizaram no uso de couros, tachas e rebites. Alguns até vinham da cena punk, como Paul Di’Anno, do Iron Maiden. Essa proximidade de sons e atitudes fez com que muitos punks fossem simpáticos aos sons vindos do metal, e vice-versa. E não tardou para, anos mais tarde, haver um encontro desses dois gêneros, via bandas como English Dogs, Corrosion of Conformity, Ratos de Porão, etc.
Mas o mundo mudou, e com ele a música (não necessariamente nessa mesma ordem). Tanto o punk rock quanto o heavy metal viraram clássicos. Estão estabelecidos e assimilados pelo sistema. Não chocam mais. Aqueles que têm como finalidade chocar o sistema, não utilizam mais esses recursos, recorrendo a outros expedientes; mas isto já é tema para outra análise. O que importa é que não esqueçamos dos pioneiros, daqueles que desbravaram caminhos, e abriram as portas para que pudéssemos entrar num mundo mais democrático musicalmente, e curtir o som que bem entendermos. Eles viveram numa época em que não havia CD, internet, revistas especializadas em comportamento e muita coisa que temos hoje, à mão, facilmente. Mas viveram intensamente, movidos pelo principal combustível: a música sincera.
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Jorge Vitzac, Revista Valhalla - ed. 24 - Coluna MICROFONIA
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