Tomo a liberdade de começar minhas palavras distorcendo um pouco o aforismo do alemão Karl Marx. Se ele identificava, no século XIX, a religião como um meio de se amortecer os ânimos populares, tornando as pessoas algo dóceis e subservientes, vejo algo semelhante acontecer nos dias de hoje. Mas o instrumento utilizado não é mais a religião, e sim a música. A música é a expressão mais primitiva da alma humana. Antes mesmo de pensar racionalmente, o homem já usava a música como forma de comunicação entre ele e os deuses, ou com a natureza, ou até consigo mesmo, através de seus semelhantes. Alegrias, tristezas, guerras, agradecimentos, mostras de fé, e tantos outros sentimentos, eram exteriorizados por meio dos cânticos rituais. Mas isso foi há muito tempo. O sagrado deu lugar ao profano, que entra em cena, deslavadamente e sem pudores, no século XX. É nessa época que verificamos o surgimento da “indústria do entretenimento”, fenômeno analisado pelo também alemão Theodore Adorno. Adorno vê a cultura (a música principalmente) como mais uma forma de exploração do trabalho pelo capital. O lazer passa a ser uma extensão do trabalho, o que faz com que essa opressão seja constante. Isso quer dizer que mesmo em seu tempo de ócio, o povo estará sempre sob o domínio da classe dominante, que oferecerá prazer só com o intuito de mais acúmulo de capital. Mas, particularmente, acho que Adorno subestima a inteligência humana e sua capacidade de reação.
Independente disso, a música passa a ser usada como forma de dominação do povo. Ditando as regras do que deve ser consumido, e assim uniformizando o pensamento, é mais fácil a “domesticação” da contestação, chegando ao ponto de manipular idéias e ideais. Refiro-me ao lado social e psicológico, mesmo. Aquele em que a música é um veículo utilizado para colocar pré-conceitos e premissas na cabeça das pessoas, sempre a favor e ao lado do dominador. Essa estratégia foi (e ainda é) utilizada com freqüência em tempos de guerra, principalmente (e quase que exclusivamente) pelos Estados Unidos da América. Seja qual for o campo de batalha, sempre tem lá um show de algum grande artista, cantor(a) ou banda, com intenção de levar um pouco de “divertimento e distração” aos soldados, além de “levantar o moral da tropa”. Muitos são os exemplos, mas existe um em particular que ficou marcado na memória de muita gente: quem não se lembra de Louis Armstrong no clipe da música “What a Wonderful World”? Cantar “que mundo maravilhoso!” em plena Guerra do Vietnã é um absurdo sem tamanho. Mas a intenção era incutir na cabeça do soldado norte-americano que o mundo é, sim, maravilhoso e que ele, soldado, deve lutar para que ninguém faça desse mesmo mundo um inferno. Ele deve dar seu sangue para que o mundo continue assim, maravilhoso. Mas e em tempos de paz? Como se dá esse fenômeno?
Você já deve ter escutado (ou pior, utilizado) a expressão: “a gente ganha pouco mas se diverte!”. Pense bem: a maioria das pessoas que pensa assim é formada por gente que canta “deixa a vida me levar, vida leva eu; sou feliz e agradeço por tudo que Deus me deu!”. Ora, mesmo quem acredita em Deus sabe que nada cai do céu! Se você não trabalhar ou não fizer nada, tudo tende ao fracasso e à morte. Mas somos massacrados por rádios, lojas de discos (ou de móveis), carros alto-falantes, etc., com uma música que enaltece o espírito do comodismo; por pior que esteja a situação, é bom do jeito que está porque “Deus quis assim!”.
É a mesma coisa daquele samba paulista “Saudosa Maloca”. Assistindo à demolição de seus barracos, um dos espectadores-vítima resolve se revoltar, mas é segurado pelos outros, que ainda comentam que se os “homi” tão fazendo isso é porque estão com a razão, e que Deus dá o frio conforme o cobertor. É mais exemplo de comodismo e passividade, que permeia nossa sociedade, que ainda se dá por conformada e não faz nada para mudar. Não tem nem o trabalho de procurar outra condição de vida melhor.
Outro exemplo que me vem à cabeça: “eu só quero é ser feliz e viver tranqüilamente na favela em que nasci”. Mais um que enaltece a desgraça em que está, e se dá por feliz. Faz um favor ao Estado e às instituições de não contestar, pois, mesmo morando num lugar altamente combustível (no sentido literal, mesmo), a todo momento exposto ao tráfico de drogas, perigando ser acertado por uma bala perdida, na guerra entre polícia e bandidos, ou mesmo entre os bandidos, submetido a toques de recolher, desabamento de barracos, e tantos e tantos outros motivos, tem orgulho do lugar ... e diz que tá tudo bem! Se gostasse do lugar, mas pelo menos quisesse mudá-lo, para sair da condição de favelado (e tirar-lhe dos ombros todo o peso que essa denominação traz). Aliás, nem isso mais (ser favelado) é problema.
Outro dia, num programa de prêmios de uma TV paga, a apresentadora, Regina Casé, deu uma demonstração de que essa situação ainda vai demorar a mudar: perguntou a um dos convidados se ele preferia que denominasse o lugar onde ele morava de “favela” ou “comunidade carente”. Ela, pertencente a uma casta de privilegiados (tanta artística quanto financeiramente, tenha méritos ou não) ainda fez o favor de expor o ponto de vista dela (que é, de certa, porta voz das classes a que pertence). Pra ela, o termo “favela” é carregado de uma “nobreza”!. Não sei ela, mas a quase totalidade dessa gente que detém o poder só conhece favela através do carnaval. E não dá pra pensar outra coisa mesmo, a respeito dessas favelas (principalmente as cariocas), diante daquele espetáculo de luxo sem comparação no mundo todo. Ora, se aquela gente consegue aquilo tudo é porque deve estar bem durante o ano todo. Francamente!
Enfim, poderia me alongar muito mais, mas estaria batendo sempre na mesma tecla: somos dominados por uma elite que teima em não sair do poder, e que usa nossa própria ignorância para se manter lá. Pra eles é fácil, pois os instrumentos usados não são de difícil aceitação nas camadas mais populares (e ignorantes) da sociedade. A música, pela própria condição de “expressão da alma” de cada pessoa, tem uma capacidade de assimilação fora do comum, mais do que qualquer discurso inflamado de Fidel Castro. E quando ela vem suave, sem dificuldades de aceite pelos ouvidos (já que as atenções dos olhos ou do corpo podem estar no trabalho, por exemplo) vai direto ao subconsciente, trabalhar. E se ela vem com uma mensagem de “contente-se com o que tem, pois já é suficiente”, então, melhor ainda! Não dá trabalho de ficar explicando o por quê da situação, uma vez que o piso da cegueira provocada pela passividade é cimentado todo dia, através da música tocada no rádio, na televisão ... e nas cabeças, pensantes ou não. Aceitar essa forma de dominação depende de cada um. Aceite, se quiser. Se não, revolte-se! E faça algo, já! Nem que seja desligar o rádio!
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